A servidora da Secretaria de Saúde de Americana e artista visual Fanny Deltreggia lança nesta quarta-feira (19), às 19h30, na Câmara Municipal, a exposição “Sobre o Papel da Pele”, que ficará aberta ao público com entrada gratuita até 5 de dezembro. A mostra reúne 24 obras produzidas em diversas linguagens, incluindo a técnica inédita de ablação do papel carbono, desenvolvida pela própria artista. A Câmara de Americana fica na Avenida Monsenhor Bruno Nardini, 1.835, no Jardim Miriam.
A exposição aprofunda reflexões sobre as múltiplas camadas que formam a história e a identidade do país, evidenciando as marcas profundas deixadas pela escravidão e pelo racismo. Os trabalhos são produzidos em lápis grafite, assemblage (técnica artística que cria composições a partir da junção de objetos, materiais e elementos diversos, formando uma obra tridimensional ou híbrida), aquarela e por meio de uma técnica inédita desenvolvida pela própria artista: a ablação do papel carbono, resultado de pesquisa, experimentação e estudo.
“Durante muito tempo trabalhei apenas com lápis grafite. Era a forma que melhor expressava o que eu sentia e pensava. Mas, de uns tempos para cá, senti a necessidade de experimentar outros materiais e suportes. Queria que o tema da minha arte ganhasse novas camadas, novas formas de aparecer. Foi aí que encontrei o papel carbono e, a partir dele, comecei a desenvolver uma técnica inédita: a ablação”, destaca Fanny.
Segundo a artista, a técnica tem relação direta com o conceito da exposição. “O papel carbono faz alusão às marcas transferidas de geração em geração, tão enraizadas em nossa sociedade que mal conseguimos enxergá-las. A ablação – a remoção da tinta – funciona como metáfora para o desvelar de camadas da história que foram propositalmente escondidas ou naturalizadas. É um convite para que o observador vá além da superfície e confronte essas cicatrizes. Com a ablação, busco dar luz ao que estava escondido, revelar o que muitas vezes passa despercebido”, explica.
A curadora Regiane Moreira ressalta que a exposição apresenta uma imersão sensível e contundente. Para ela, a maternidade de uma menina negra despertou em Fanny uma nova escuta e direcionou sua pesquisa artística a uma consciência urgente: a necessidade de confrontar o racismo estrutural, não como uma ideia abstrata, mas como presença íntima, cotidiana e inegociável. “As obras reunidas não são apenas expressões estéticas: são dispositivos de denúncia, memória e afeto. Funcionam como espelhos e feridas abertas, revelando as camadas invisíveis de uma história que insiste em se esconder sob a superfície da modernidade brasileira”, conclui.